Em meio ao caos provocado pelos terremotos na Venezuela, Jorge Bastidas, um programador de 32 anos que reside na Argentina, se viu em uma situação angustiante. Enquanto estava em Bogotá a trabalho, recebeu a notícia dos tremores e imediatamente tentou contatar sua família, sem sucesso. A ineficácia das comunicações fez com que ele e outros venezuelanos ao seu redor sentissem a impotência da distância. O que começou como uma crise pessoal rapidamente se transformou em uma missão coletiva, levando Bastidas a criar um portal chamado “Desaparecidos Terremoto Venezuela”.
Desde seu lançamento, o site recebeu mais de 82 mil registros de desaparecidos, um número alarmante que, após a depuração de dados, revelava cerca de 29.486 pessoas ainda sem contato. A ausência de uma lista oficial por parte do governo venezuelano apenas intensificou a frustração de Bastidas. “O governo tem os recursos, mas não age”, desabafa, refletindo sobre a responsabilidade que as autoridades deveriam ter em crises desse tipo.
A plataforma, desenvolvida em tempo recorde com o auxílio de inteligência artificial, permitiu que familiares registrassem informações sobre entes queridos desaparecidos, ajudando a criar uma rede de solidariedade em um momento de desespero. Bastidas reconhece que a situação era caótica: “No início, não sabia a dimensão dos danos”, diz ele, ao lembrar do dia em que o site foi lançado. O tráfego foi tão intenso que o portal precisou de reestruturações para suportar o volume de acessos.
Entretanto, o desafio não foi apenas técnico. Bastidas enfrentou o problema de informações falsas e brincadeiras maldosas que comprometiam a seriedade do projeto. Para contornar isso, ele implementou um sistema de moderação e restrições, assegurando que o foco permanecesse nas pessoas realmente afetadas pelo desastre.
Além disso, a colaboração de outros venezuelanos, como a advogada Daneli Hernández, foi crucial para reunir e organizar informações sobre vítimas nos hospitais. “Nenhum hospital estava preparado para lidar com a quantidade de informações que estava recebendo”, enfatiza Hernández, destacando a necessidade de um esforço conjunto para salvar vidas e trazer alívio às famílias aflitas.
O impacto do site foi profundo. Alceo Angelini, um dos muitos que utilizaram a plataforma, encontrou um certo conforto ao registrar o desaparecimento de seu primo. “Foi útil para nós, pelo menos para ter a tranquilidade de que alguém estava nos ajudando”, relata. A história de Alceo ilustra como a iniciativa de Bastidas não só serviu como um canal de comunicação, mas também como um meio de esperança em meio à incerteza.
Entretanto, o caminho não tem sido fácil. O portal enfrentou ataques que comprometeram dados, forçando Bastidas a reforçar a segurança e implementar mais controles. “Não deveríamos esperar pelo Estado para agir”, conclui, reafirmando a importância de iniciativas civis em momentos de crise. A luta pela verdade e pela informação continua, e Bastidas sabe que ainda há muito a ser feito para trazer respostas a um país marcado pela tragédia.



